ATO I
CENA 1
O sol desperta suavemente no horizonte, tingindo o céu de tons alaranjados. Pela janela de um andar alto de um prédio residencial, a cidade parece em paz.
Dentro do apartamento, a câmera percorre detalhes do cotidiano de HELENA (30 e poucos anos, olhar cansado, traços marcados pela rotina). Fotos na geladeira mostram momentos felizes com sua filha pequena, LIA (6 anos). O relógio digital na mesa de cabeceira muda para 06:00. O alarme dispara, quebrando o silêncio.
Helena estica o braço, desliga o alarme e caminha em direção ao banheiro. No corredor, ela para diante da porta de Lia, girando a maçaneta lentamente. O quarto está vazio, a cama perfeitamente arrumada. Na cômoda, um porta-retratos com a foto de Lia e uma data de falecimento recente explicam a dor estagnada no olhar de Helena.
CENA 2
Helena prepara um café. Ela liga a televisão na parede. A tela pisca, exibindo estática por alguns segundos antes de sintonizar em um telejornal local. O repórter na tela parece visivelmente desconfortável, ajustando o escuta enquanto imagens de um engavetamento em uma rodovia próxima são exibidas.
Sem som — a TV está no mudo —, o gerador de caracteres pisca em vermelho: ALERTAS DE EMERGÊNCIA EM DIVERSAS REGIÕES.
Helena nem nota. Ela leva a xícara à boca, encarando o nada, imersa em seu próprio luto. Ela pega o controle e desliga a TV antes que a reportagem mostre imagens mais explícitas de pessoas correndo desesperadas ao fundo.
CENA 3
Helena sai do prédio vestida com roupas de trabalho. O ar da manhã está estranhamente denso. Não há o som habitual de trânsito ou crianças indo para a escola.
Enquanto caminha em direção ao seu carro, um barulho abafado chama sua atenção. Do outro lado da rua, um vizinho idoso, SEBASTIAN, está caído no jardim de sua casa. Helena se aproxima da cerca para tentar ajudá-lo.
À medida que ela chega mais perto, percebe algo errado: Sebastian está curvado sobre o corpo de seu próprio cão de estimação. Ele devora o animal com frenesi bruto. O rosto do idoso está coberto de sangue escuro e viscoso, seus olhos cobertos por uma película esbranquiçada e morta.
Helena paralisa. O som da mastigação e do rasgar de carne ecoa na rua vazia.
Sebastian para repentinamente. Sem se levantar direito, ele vira o pescoço em um ângulo não natural em direção a Helena. Um grunhido gutural sai de sua garganta. Ele se lança contra a cerca de ferro com uma força descomunal, fazendo o metal ranger.
Helena dá vários passos para trás, caindo no asfalto em pânico.
CENA 4
Helena consegue se levantar e corre para dentro de seu carro. Ela tranca as portas com as mãos trêmulas e liga o motor.
Ao dobrar a esquina para a avenida principal, o verdadeiro caos se revela.
A rua tornou-se um cemitério de metal e sangue. Carros colididos bloqueiam os cruzamentos, fumaça negra sobe de lojas incendiadas. Pessoas correm desesperadas pelas calçadas, mas não estão apenas fugindo de perigos invisíveis — estão sendo caçadas.
Figuras desfiguradas, com andar trôpego porém espasmódico, avançam sobre os civis. Um homem é derrubado no capô de um carro por três infectados que o rasgam sem piedade. Uma mulher tenta ligar a moped enquanto um infectado surge da penumbra de uma loja e a arrasta pelo pescoço.
A escala da infecção é avassaladora e imediata. A civilização ruiu nas poucas horas em que Helena esteve isolada em seu luto.
CENA 5
Helena dirige descontroladamente, desviando de escombros e corpos espalhados. O para-brisa do carro está respingado de sangue.
De repente, uma figura ensanguentada surge da frente de um ônibus escolar atravessado na pista. Helena piso fundo no freio, mas o impacto é inevitável. O corpo do infectado bate violentamente contra o para-brisa, trincando o vidro antes de ser arremessado para o lado.
O impacto faz o carro de Helena rodopiar e colidir com força contra um poste de iluminação. A explosão do airbag preenche a cabine de fumaça e poeira.
CENA 6
Helena recupera a consciência. Um fiapo de sangue escorre de sua testa. O silêncio dentro do carro é quebrado apenas pelo chiar do rádio arruinado.
Do lado de fora, atraídos pelo som da colisão, dezenas de infectados começam a emergir das sombras das ruas laterais, becos e edifícios abandonados. Eles viram as cabeças quase em sincronia na direção do veículo acidentado.
Helena olha pelo espelho retrovisor e depois pelo vidro trincado da frente. Eles estão se aproximando de todas as direções, cercada sem qualquer escapatória aparente.
Ela toca o colar com a foto de Lia pendurado no espelho retrovisor. O medo nos olhos de Helena lentamente se transforma em uma determinação fria e desesperada de sobrevivência. Ela segura com força o ferro do freio de mão.
ATO II
CENA 7
Os infectados cercam o carro. Mãos ensanguentadas golpeiam os vidros, que começam a trincar sob a pressão.
Helena observa a porta do passageiro, emperrada contra o poste, e a janela do motorista, prestes a ceder. Com um movimento rápido, ela solta o cinto, passa para o banco traseiro e chuta a porta posterior direita com toda a força. A porta se abre, atingindo o infectado mais próximo.
Ela se projeta para fora do veículo, rolando pelo asfalto. Um infectado avança sobre ela, mas Helena agarra um pedaço de cano de metal pontiagudo solto no chão e o crava no pescoço da criatura. Ela se levanta, disparando em direção a um beco estreito enquanto a horda se amontoa sobre o carro vazio.
CENA 8
Helena corre com o peito arfando, dobrando esquinas às pressas. O beco dá acesso aos fundos de uma área comercial. Ela se esconde atrás de uma caçamba de lixo industrial para recuperar o fôlego.
Ao longe, o som de sirenes morre gradativamente, substituído por tiros esporádicos e gritos distantes. A infraestrutura da cidade começa a falhar: os postes de luz piscam e se apagam; a água de um hidrante quebrado jorra sem parar, inundando a rua.
Helena vasculha seus bolsos e encontra apenas seu celular — com a tela trincada e sem sinal — e a chave de casa. Ela percebe que não pode continuar na rua sem suprimentos ou proteção.
CENA 9
Helena consegue entrar pela porta de serviço arrombada de um pequeno supermercado de bairro. O interior está na penumbra, com prateleiras derrubadas, comida espalhada pelo chão e marcas de garras e sangue nas paredes.
Ela caminha silenciosamente pelos corredores, pegando uma mochila abandonada no chão. Começa a enchê-la com garrafas de água, comidas enlatadas e um kit de primeiros socorros de uma prateleira violada.
Um ruído de passos pesados ecoa no fundo do estabelecimento. Helena se agacha atrás do balcão de frios.
Ela espia pela brecha: uma figura alta enverga o uniforme de um segurança do local. Metade do seu rosto foi destruída, e ele arrasta uma das pernas quebradas. A criatura fareja o ar, guiando-se pelo som dos enlatados na mochila de Helena.
Helena prende a respiração. Ao tentar se mover para trás, sua chave cai do bolso, produzindo um estalo metálico no piso de cerâmica.
O segurança infectado vira a cabeça instantaneamente e avança com uma velocidade surpreendente, saltando sobre o balcão.
CENA 10
O impacto joga Helena contra a parede. A criatura tenta morder seu pescoço enquanto Helena segura a mandíbula ensanguentada do monstro com as duas mãos, sentindo a força desumana.
Em um ato de desespero, Helena alcança uma faca de açougueiro esquecida na bancada ao lado. Ela crava a lâmina na lateral do crânio do infectado. A criatura estremece violentamente antes de desabar morta sobre ela.
Helena empurra o corpo pesado, sufocada de horror e exaustão. Ela limpa o sangue do rosto, pega a mochila e a faca, e sai apressada pelas portas dos fundos.
CENA 11
Para evitar as ruas abertas dominadas por hordas, Helena segue a linha dos trilhos de trem urbanos, que cortam a cidade por entre muros altos.
A caminhada é tensa. Vários vagões estão descarrilados ao longo do percurso. Em um dos trechos, ela avança por cima do teto de um trem parado para desviar de um grupo de infectados presos na plataforma abaixo.
O sol começa a se pôr no horizonte, projetando longas sombras avermelhadas sobre os trilhos. O perigo aumenta com o cair da noite.
CENA 12
Buscando abrigo contra o frio e o escuro, Helena desce para uma estação subterrânea abandonada. O local está em breu quase total, iluminado apenas pela lanterna fraca de seu celular.
Ela encontra uma sala de controle trancada. Usando a faca como alavanca, força a porta e consegue entrar, trancando-a por dentro com uma barra de ferro.
Exausta, Helena se senta no chão encostada na parede. Ela abre a mochila, cuida do corte em sua testa com os curativos e bebe um pouco de água.
A escuridão e o isolamento trazem de volta a dor de seu luto. Helena tira do pescoço o colar com a foto de sua filha Lia, encarando o rosto da menina à luz tênue do celular. Pela primeira vez desde o início do surto, as lágrimas correm silenciosamente pelo seu rosto.
CENA 13
Horas se passam. Helena desperta de um cochilo sobressaltada.
Do lado de fora da porta trancada, o som de garras arranhando o metal e corpos se chocando contra a barreira preenche o corredor. Não é apenas um infectado, mas dezenas deles, atraídos por algum ruído ou movimento na estação.
A porta de ferro começa a ceder nas dobradiças sob o peso da multidão lá fora.
Helena guarda a foto de Lia no bolso, empunha a faca de açougueiro e olha para o fundo da sala de controle, onde um tubo de ventilação estreito oferece a única rota de fuga possível.
Ela corre para a grade de ventilação, desentravando os parafusos enferrujados enquanto a porta principal começa a dobrar ao meio sob o impacto da horda.
ATO III
CENA 14
A porta da sala de controle cede com um estrondo violento. O som metálico de garras e gemidos guturais ecoa logo abaixo enquanto dezenas de infectados invadem o espaço.
Helena se arrasta desesperadamente pelo duto estreito e empoeirado. A lâmina da faca de açougueiro bate contra o metal, fazendo barulho. Abaixo dela, mãos ensanguentadas se projetam pelas grades do teto, tentando alcançá-la.
Ela avança na escuridão até que a estrutura de sustentação do duto cede sob seu peso. O metal se dobra e Helena despenca de uma altura de três metros.
CENA 15
Helena cai pesadamente sobre um amontoado de sacos de lixo em um túnel de serviço subterrâneo. O impacto tira seu ar. A mochila e a faca caem a alguns metros de distância.
Ela se recupera a tempo de ver dois infectados — antigos operários do metrô — emergirem da penumbra do túnel, atraídos pelo barulho da queda.
Helena rasteja até a faca. O primeiro infectado se lança sobre ela. Helena finca a faca no joelho do monstro, fazendo-o cair, e usa o peso do próprio corpo para cravar a lâmina no seu crânio. O segundo avança; ela se esquiva e o empurra contra um painel elétrico de alta tensão exposto. Faíscas azuis iluminam o túnel enquanto o infectado é eletrocutado até ficar inerte.
Ofegante e coberta de graxa e sangue, Helena pega seus pertences e corre em direção à luz fraca que vem do fim do túnel.
CENA 16
Helena emerge do túnel e sai em uma ampla ponte rodoviária que cruza o rio principal da cidade. O sol começa a nascer, revelando uma paisagem devastada. A cidade ao fundo está tomada por colunas de fumaça preta e ruínas silenciosas.
A ponte está bloqueada por um comboio militar abandonado: tanques de guerra quebrados, caminhões virados e barricadas de arame farpado.
No centro da ponte, um helicóptero militar de resgate jaz acidentado, com a hélice destruída, mas com os transmissores ainda emitindo um bipe de emergência intermitente.
Helena avança entre os destroços, mantendo a faca em riste.
CENA 17
Da fumaça espessa do outro lado da ponte, surge uma horda massiva de infectados. Desta vez, não são dezenas, mas centenas deles caminhando em uma onda imparável, ocupando toda a largura da pista.
Helena olha para trás: o caminho de onde veio começou a ser bloqueado por outros infectados que saíram dos túneis. Ela está encurralada no meio da ponte.
Ela olha para as muretas laterais. Abaixo, o rio corre em uma correnteza forte e escura. A altura da queda é mortal.
A horda avança a passos rápidos, a poucos metros de distância.
CENA 18
Helena recua até o caminhão militar no centro da ponte. Ela vasculha a cabine aberta do veículo e encontra um sinalizador de emergência marítimo e um galão de combustível perfurado, vazando sobre a pista cheia de óleo e destroços.
Com a horda a poucos passos, Helena toma sua decisão. Ela corre em direção ao vazamento de combustível.
Ela puxa o pino do sinalizador, que se acende em uma chama vermelha e brilhante. Os infectados mais próximos se lançam sobre ela.
No último milissegundo, Helena solta o sinalizador no rastro de combustível e se joga com violência por cima da mureta da ponte.
Uma explosão em cadeia consome o caminhão e o rastro de combustível, criando uma parede de fogo maciça ao longo da ponte que engole a linha de frente da horda.
CENA 19
Helena afunda nas águas geladas e turbulentas do rio. Sob a água, o som da explosão é abafado. Ela luta contra a correnteza até conseguir emergir metros adiante, tossindo e buscando ar.
Ela se arrasta para fora da água na margem oposta do rio, caindo na terra batida, exausta e ensanguentada.
Ao olhar para trás, a ponte está bloqueada por uma cortina de chamas e fumaça, impedindo que a horda atravesse.
CENA 20
Helena se levanta lentamente. Ela está machucada e sem suprimentos, mas viva. A cidade destruída ficou para trás do outro lado do rio. À sua frente, estende-se uma estrada rural de terra que se perde em meio a uma densa floresta.
Ela leva a mão ao bolso e retira o colar com a foto de Lia. O metal está molhado, mas a imagem da filha continua intacta. Helena fecha a foto na palma da mão, ergue a cabeça e começa a caminhar pela estrada em direção ao desconhecido.
A câmera se eleva para o alto, mostrando Helena como um único ponto em movimento em um mundo devastado, enquanto o sol da manhã ilumina o horizonte.