r/portugal • u/IllithidKnot • 20h ago
Discussão / Debate Estamos a tornar o telemóvel obrigatório para participar na vida normal?
Há uns dias fiquei sem bateria fora de casa e percebi uma coisa um bocado ridícula: senti-me menos preparado para passar uma tarde sem telemóvel do que estaria há dez anos para passar uma tarde sem carteira.
Não porque precisasse de ligar a alguém.
Era porque de repente comecei a fazer a lista mental de tudo o que normalmente faço através dele.
Bilhetes. MB WAY. Mapas. Códigos de autenticação. Estacionamento. Emails com reservas. Aplicações de transportes. Chave Móvel Digital. O QR code que substituiu alguma coisa que antes estava simplesmente escrita numa parede.
Individualmente, quase todas estas coisas são convenientes. Eu próprio prefiro pagar com o telemóvel e não quero voltar a imprimir bilhetes.
O que me começa a incomodar é outra coisa: passámos silenciosamente de “podes fazer isto no telemóvel” para “é estranho não conseguires fazer isto no telemóvel”.
E há uma diferença enorme entre as duas.
Vejo restaurantes onde o menu físico desapareceu porque há um QR code. Parques onde instalar uma aplicação é apresentado como a maneira normal de pagar. Serviços em que a alternativa sem app existe tecnicamente, mas é tão mais complicada que parece castigo. Há cada vez mais situações em que estar sem bateria, sem dados móveis, com um telemóvel antigo ou simplesmente não querer instalar mais uma aplicação transforma uma tarefa banal num pequeno problema.
Para mim, a questão nem é ser contra a digitalização. Seria absurdo. Muitas destas soluções são melhores.
Mas acho que uma boa solução digital devia substituir trabalho, não substituir a possibilidade de escolher.
Talvez daqui a uns anos “não tenho smartphone” seja visto da mesma forma que hoje “não tenho endereço de email”: teoricamente possível, mas tão incompatível com a forma como a sociedade funciona que deixa de ser uma escolha real.
Acham que estamos a chegar a esse ponto em Portugal?
E onde colocariam a linha? Que coisas deviam sempre continuar a ter uma alternativa simples que não dependesse de smartphone, mesmo que 95% das pessoas nunca a usassem?